Quando eu era criança, na década de 1990, lá pelas bandas da zona leste da cidade de São Paulo, pouco sabia sobre o movimento feminista, a luta pela igualdade, o tão falado empoderamento feminino e coisas do tipo, mas eu sabia reconhecer o machismo e o abuso muito bem, afinal, nascemos mulheres, e reconhecer esses atos está na cartilha de sobrevivência, não é, manas? Infelizmente.
Dentro da realidade em que eu estava inserida — branca, classe média baixa, católica, de descendência europeia —, o patriarcado se mostrava com sutileza em meio ao aparente meio matrifocal das raízes italianas. Mulheres na cozinha, homens na sala, sempre! Independente do motivo da reunião familiar, o quadro era o mesmo. Eles passavam pela cozinha somente para abrir a geladeira, ou o armário, e voltavam para o seu meio, enquanto as mulheres ficavam ali cozinhando, limpando, desabafando, criando, gestando. E eu só observava: mães dedicadas (e cansadas), mulheres guerreiras (porque era necessário ser, sem romantismo), mulheres sozinhas mesmo acompanhadas, grandes sensitivas (isso tinha um monte), mulheres desafiadas, mulheres que desejavam ser mães, outras que não desejavam e outras que eram mães mesmo sem filhos. Mulheres fortes, corpos frágeis, corações grandes, que mesmo sendo menosprezadas não tiravam o sorriso do rosto. Elas tinham muito para falar e eu tinha sede de ouvir.
Fui criada por 3 mulheres, e a presença masculina sempre foi muito sutil na minha vida: na imagem do meu padrasto (o único morador homem em uma casa em que até os animais eram fêmeas), meu padrinho, meus tios e primos, mas as mulheres sempre foram o destaque! Olhando assim, eu não poderia ter escolhido outro caminho mesmo.
Quando iniciei minha jornada dentro da naturopatia, ginecologia natural e sagrado feminino, uma coisa ficou muito clara logo de cara: não há como separar o feminismo do sagrado feminino, não dá para a gente honrar o nosso ventre, nos conectarmos com a nossa energia feminina e reconhecermos a potência do nosso ciclo menstrual sem acreditar e lutar por um mundo onde as mulheres são livres para sentirem, para sonharem, para que possam viver da forma que escolherem; liberdade na mente, no espírito e no corpo. Aprisionar a nossa mulher selvagem dentro da caixa limitante do patriarcado é como cair em uma teia de aranha, quando a gente se dá conta estamos presas e ele está ali nos encarando, pronto para nos devorar.
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A desconstrução é diária e faz parte do processo terapêutico dentro dos meus atendimentos com a naturopatia feminina. Quando uma mulher desperta a sua potência, ela leva consigo outras mulheres, passa a respeitar a si mesma e a apoiar as outras, e entende a força que acontece quando as mulheres se juntam: esse é o maior medo de uma sociedade patriarcal e opressora.
O mundo precisa dessa força feminina, não só para as mulheres, mas também para libertar o feminino oprimido que existe dentro dos homens. Liberte-se!