Uma paisagem nascida de gestos. A provocação de uma memória afetiva por uma imagem, por uma palavra: “quarar”. A mão da avó mergulhada no balde. A mão da avó gestuando água sobre os lençóis estendidos no capim crescido do quintal. Uma sensação antiga se superpõe à sensação atual e a estende sobre várias épocas ao mesmo tempo. O corpo experimentando a dinâmica da imanência em tempos múltiplos: quarar a alma. Objeto sensório, transportando a imaginação.
A memória implica. Uma estranha contradição entre a sobrevivência e o nada. Nada mais? Só memória? Quarar, um hábito ancestral, praticamente em desuso, é trazido para o presente, proporcionando uma estranha alegria. Uma vez experimentada essa alegria, a qualidade aparece como uma propriedade do objeto que a possui: o gesto visto. Mas, estranhamente, tudo se passa como se essa qualidade envolvesse a alma de um objeto diferente daquele — um signo.
Lavar a alma, experiência sutil, acontecimento leve. Como constituir um corpo nessa experimentação delicada? Como constituir um corpo na elasticidade de tempos de uma sensação? O Tempo, para tornar-se visível, vive à cata de gestos e, mal os encontra, logo deles se apodera, a fim de exibir sua lanterna mágica. Que gestos? Fragmentos de tempos plurais. Memória do corpo. Memórias em movimentos fugazes, quase imperceptíveis. Pequenas inquietações moventes.
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A própria subjetividade passa por ressignificação, gestua entre tempos, sensações, memórias. Gestos: movimentos de um corpo que se desenha e redesenha sua forma. O movimento a transportar a alma para outro lugar. Um lugar, uma paisagem nascida de gestos. Uma estética na produção de existência em corpo-pensamento. Na memória, as afetações dos tempos. A imaginação colocada em movimento. Encontros. As experimentações se constituirão em corpalma, ao mesmo tempo realidade e poesia, num signo que se revela artistado: o gesto do quarar.