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Relacionamento intergeracional: os atritos que minam projetos pessoais e profissionais

Imagem de várias pessoas reunidas, mostrando apenas suas mãos. A imagem traz o conceito de pessoas protegendo o equilíbrio entre vida e trabalho.
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Escrito por Márcia Leite

A diversidade nas relações interpessoais exige respeito e comunicação aberta. Superar conflitos entre gerações e grupos exige entendimento das diferentes perspectivas, equilibrando tradição e inovação. O desafio é criar ambientes harmônicos, onde a tolerância e o aprendizado mútuo prevaleçam.

O que pode acontecer se uma palavra ou comportamento diferente do esperado for apresentada em um relacionamento, inicial ou de longos anos, entre duas pessoas ou mesmo um grupo de pessoas completamente diversas?

Estamos vivendo tempos bastante complicados em uma sociedade em que algumas pessoas encontram problemas relacionais nos mínimos detalhes. As questões mais atuais indicam a construção de conflitos a partir da linha tênue do pensamento de uma cabeça que não carrega as mesmas informações de outra cabeça, e por isso, fica composta a diversidade.

Essa diversidade pode ser visualizada pelo gênero, pela idade, pela formação intelectual, pelo perfil financeiro, pelo comportamento psicológico, pelo grupo identitário, e outros indicadores.

As linguagens, utilizadas em cada um desses grupos, podem caracterizar um modo de vida e de convivência aceito pelos membros, que são correntemente empregadas no cotidiano, sem que haja atritos significativos, que causem mal-estar permanente.

Para exemplificar, em uma família, entre avós, pais, filhos e netos, há diferenças geracionais, culturais e de gênero, que influenciam no modo de comunicação, e que podem produzir reações positivas ou negativas, que pedem o estabelecimento de um diálogo de explicação, onde o equilíbrio psicológico é fundamental para atingir um consenso.

Muitas dessas interações não são finalizadas do modo que as partes imaginaram como resultado, mas mostra-se relevante a tentativa de se chegar a um acordo, mesmo que seja um afastamento temporário ou permanente entre os envolvidos.

No meio familiar, pode-se discutir sobre todos os assuntos, até com a quebra de tabus, como regras de vestimenta, horários estabelecidos, regras de convivência, modos de colaboração e divisão de tarefas, exigências individuais e compromissos com a coletividade, espiritualidade e religiosidade, além de assuntos um pouco mais complexos que costumam aparecer no dia a dia.

Imagem de uma família composta por pai, mãe e filho sentados em um sofá na sala de estar. Eles estão felizes e brincando o filho.
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Neste ambiente, sendo local de intimidade, desentendimentos e reconciliações podem acontecer com muita frequência, o que não garante uma convivência pacífica e harmoniosa. Mas, no conceito geral e padronizado, continua sendo a família consanguínea, de origem.

No meio profissional, onde as pessoas começam a se conhecer, pré-julgamentos podem gerar diversos equívocos, pois as origens diferentes podem causar desentendimentos, sem que haja antes uma tentativa de analisar as atitudes das pessoas, não havendo preocupação de realmente conhecer quem está por trás da capa de apresentação.

Posturas profissionais são construídas e muitas pessoas recorrem à artificialidade das palavras de rodapé de dicionário, para esconder as suas características principais.

Neste ambiente, que geralmente se configura pela disputa de posição de destaque, algumas pessoas tendem a tentar se sobrepor às outras e tomam atitudes como cortar falas, exagerar nas argumentações, ser intempestiva e impositiva ao extremo. Muitas passam a distorcer os fatos para sustentar as próprias convicções, sem se preocupar com a veracidade daquela narrativa.

Pessoas com este comportamento não se incomodam com o sentimento do outro, apesar de pedir que o façam consigo mesmas. Querem sempre fazer valer a sua vontade, não considerando que existem outras formas de pensar, e imprimem uma atmosfera nebulosa, de descontentamento, de desconfiança e de afastamento de quem está à sua volta. Ainda assim, segue o seu caminho, derrubando obstáculos como um trator, mesmo que estes sejam frágeis como casca de ovo, não conseguindo medir qual seria a força necessária para fazê-lo.

Outras pessoas costumam agir de modo mais leve, sem atropelamentos, sem brigas homéricas, sem agressões. Buscam, mesmo que permeada de acertos e erros, imprimir um clima mais ameno nas relações, tentando respeitar ao máximo as opiniões divergentes, para a preservação da boa vizinhança. Entendem que, muitas vezes, é preciso dar alguns passos para trás, para poderem avançar com mais segurança, sem a necessidade de desclassificar as ideias e atitudes dos pares.

Talvez, esta minha linha de pensamento seja um produto do tipo de educação que a minha geração, classificada como geração X, recebeu e tenta aplicar nos relacionamentos. Porém, muitas vezes, devido à diferença geracional, não enxergam as novas linguagens usadas por determinados grupos. E o movimento inverso é também válido, pois algumas pessoas de gerações mais novas não se colocam disponíveis para conviver em harmonia com pessoas de gerações anteriores.

Imagem de um grupo de pessoas da geração Z, sentados em uma escada do prédio de uma faculdade.
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Lembro-me de um conselho de uma amiga minha, da mesma faixa etária, que teve uma experiência maior com gerações Y e Z, alertando-me sobre a dificuldade que eu poderia enfrentar em alguns ambientes, onde muitos agiriam com hostilidade. Para entender o recado, comecei a ler um pouco mais sobre as gerações que compõem a sociedade atual e que, eu teria que enfrentar com o máximo de respeito.

Como tudo na vida deveria ser compreendido como chance de aprendizado e crescimento, e somente com muitos erros é possível aumentar as possibilidades de acertos, eu, como pessoa pertencente à geração X, nascida em um período ditatorial quando a fala, as atitudes e as companhias eram bastante vigiadas e cerceadas, constato que a caminhada ainda é muito longa na busca de assimilação de comportamentos que não estão dentro do meu círculo de convivência, mesmo que as idades das pessoas que estão em minha volta variem entre adolescentes e idosos.

Para me utilizar de conhecimento do meio acadêmico, conforme um artigo que li recentemente publicado pela PUC-Rio, geração é conceituada como “grupo de pessoas que compartilharam experiências parecidas, que têm idades similares e que seguem tendências”, como uma frase escrita por dois autores em 2006 – Buz Delgado e Bueno Martínez, surge o desafio grande de trazer uma convivência pacífica e onde trabalhar a tolerância entre as diferentes gerações seja baseada na repetição amorosa dos novos conceitos, que surgem na velocidade da luz, para ser possível substituir os erros constantes por acertos concretos.

Também segundo o artigo, cujo autor não está identificado, é preciso que as relações intergeracionais proporcionem troca de ideias, conhecimento, sempre observando quais foram os estímulos e valores recebidos pelos membros dos grupos, para uma interação harmoniosa.

Ainda no texto, há uma citação do sociólogo Dumazedier que vale a pena reproduzir aqui:

As velhas gerações continuam a ter uma função de transmissão de conhecimentos às novas gerações. Há uma atitude seletiva com respeito aos ensinamentos da tradição e às lições da experiência, seja no trabalho, seja nas relações sociais, na vida familiar, no lazer, etc., porque as pessoas idosas representam, antes de mais nada, uma memória coletiva. Se elas não transmitirem esse tipo de saber, quem o fará?

Quem carrega a bandeira da diversidade, atualmente, continua aprendendo os novos códigos que se apresentam diariamente e que simbolizam os valores e costumes que cada grupo sustenta.

Segundo Antônia Aranha, a diversidade prega o respeito e a tolerância às posições comportamentais do outro, porém, ao sentir a diferença, é preciso estar preparado para exercitar o acolhimento e contribuir com a construção de novos elementos culturais, procurando compreender as atitudes dos outros, aplicando a desconstrução de preconceitos enraizados e eliminação do sentimento de superioridade e retirada de privilégios.

A pergunta que eu deixo é:

Diante de situações de conflitos geracionais através da cultura de convivência com a diversidade, como você agiria para chegar a um consenso pacificador?

Referências:

Aranha, Antônia Vitória Soares. Diversidade e formação docente: um desafio para o avanço da Educação. Artigo. Revista Brasileira de Pesquisa sobre Formação Docente, v.03, n. 04, p. 54-61. Belo Horizonte, 2011. Disponível em: < >. Acesso em: 14 mar. 2025.

PUC-Rio. Grupo intergeracional: espaço de diálogo entre as gerações. Rio de Janeiro. Certificação digital n.º 0410376/CA. Disponível em: https://www2.dbd.puc-rio.br/pergamum/tesesabertas/0410376_07_cap_04.pdf. Acesso em: 14 mar. 2025.

Sobre o autor

Márcia Leite

Pós-graduada em Gestão Municipal, graduada em Farmácia e em Tecnologia em Comércio Exterior. Através de meu perfil multidisciplinar, busco instigar os leitores a entender que existem outras sabedorias e que é possível conviver pacificamente com todas elas, para atingir a paz coletiva e duradoura.